Ted Aguilar, do Death Angel, acha que as bandas atuais não possuem identidade: “Não sei quem é quem”

Existe um comportamento bastante comum entre fãs mais antigos de Heavy Metal: a dificuldade em se conectar com bandas mais recentes. Muitas vezes, basta ouvir alguns minutos de um novo grupo de Thrash Metal, Speed Metal ou Heavy Metal para surgirem comentários apressados classificando aquela formação como genérica, derivativa ou apenas mais uma repetição do passado.

O problema é que essa percepção nem sempre corresponde à realidade. Evidentemente, ninguém é obrigado a gostar de tudo o que escuta. Entretanto, quando apreciamos determinado estilo musical, vale a pena oferecer uma oportunidade genuína aos artistas que surgem dentro daquela mesma linguagem. Afinal, quantos discos clássicos não precisaram de várias audições até revelarem todo o seu potencial? É comum rejeitarmos um álbum inicialmente e, algum tempo depois, descobrirmos que ele se tornou um dos nossos favoritos.

Hoje, porém, parece que muitas pessoas já começam a audição com a intenção de encontrar defeitos. Em uma era marcada pela disputa constante por atenção, as opiniões costumam surgir antes mesmo que a música tenha a chance de ser absorvida adequadamente. Muitas bandas excelentes estão lançando trabalhos de alto nível, e quem ignora essa nova geração pode acabar perdendo obras que, daqui a alguns anos, estarão lado a lado com os grandes clássicos em suas playlists.

O desafio de ouvir algo novo

Nem sempre isso acontece por má vontade. Em muitos casos, trata-se quase de um reflexo do tempo em que vivemos. Consumimos conteúdo rapidamente, pulamos de uma faixa para outra e raramente dedicamos atenção integral a um álbum. Por isso, quando for conhecer um artista novo, talvez valha a pena desacelerar. Ouça com calma, sem distrações, e permita que as músicas revelem suas nuances.

A repetição também desempenha um papel importante nesse processo. Isso vale tanto para obras complexas quanto para registros mais diretos. Muitas vezes, é justamente na segunda, terceira ou quarta audição que os detalhes começam a fazer sentido e as composições passam a criar conexões mais profundas com o ouvinte.

Ainda assim, adaptar-se às mudanças nunca foi simples. E essa dificuldade não afeta apenas os fãs. Em entrevista recente ao canal Pipeman, o guitarrista Ted Aguilar, do Death Angel, admitiu que também encontra obstáculos para se identificar com boa parte das bandas atuais.

“As bandas tinham sua própria identidade”

Ao refletir sobre a cena contemporânea, Ted Aguilar fez questão de destacar que não tem nada contra os grupos mais novos. Pelo contrário, ele reconhece que existe uma quantidade enorme de bandas mantendo o metal vivo. Entretanto, acredita que a identidade individual era mais evidente durante a época em que cresceu.

“Não tenho nada contra as bandas de metal de hoje, e o lado positivo é que existem muitas delas — talvez até demais às vezes. O mercado está saturado. E elas estão mantendo o estilo vivo. Estão carregando a tocha. Mas eu cresci em uma época em que o thrash metal era diferente: o Anthrax soava diferente do Overkill, o Death Angel soava diferente do Testament. Cada um tinha sua própria identidade, embora todos tocassem thrash.”

O guitarrista também lembrou que praticamente todas as bandas daquela geração compartilhavam influências semelhantes, mas ainda assim conseguiam construir personalidades muito distintas.

“Claro, todos eram influenciados pela New Wave Of British Heavy Metal e pelo punk rock e, obviamente, pelo Metallica. Todo mundo era influenciado pelo Metallica e pelo Exodus, porque eles estavam na linha de frente. Mas cada banda dizia: ‘Queremos aquela agressividade, mas com o nosso próprio estilo’. Por exemplo, Mark Osegueda não soa como Chuck Billy. Chuck Billy não soa como Sean Killian, e ninguém soa como Zetro (Steve Souza).”

A crítica de Ted ao metal moderno

Na sequência da conversa, Aguilar explicou qual é sua principal ressalva em relação ao cenário atual. Segundo ele, embora os músicos modernos sejam tecnicamente impressionantes, muitas bandas acabam soando parecidas demais.

“Minha reclamação sobre o metal de hoje — e isso é apenas a minha opinião, não é uma crítica a essas bandas — é que eu não consigo distinguir uma da outra.”

O músico fez questão de enfatizar que admira profundamente o nível técnico alcançado pelas novas gerações.

“E eu acho que o metal atual tem músicos incríveis. Meu Deus, eles tocam muito mais do que nós tocávamos. São extremamente talentosos. Na nossa época, você aprendia seu instrumento junto com a banda. Vocês evoluíam juntos.”

Para ele, a internet, os influenciadores e os conteúdos educacionais disponíveis atualmente ajudaram a elevar o padrão técnico dos instrumentistas a um nível impressionante.

“Existem músicos fantásticos por aí. Gente inacreditável. Às vezes eu me pergunto o que colocam na água para que a nova geração toque tão bem.”

Photo: Mariano Regidor/Getty Images

A importância da interação humana na música

Apesar dos avanços tecnológicos, Ted Aguilar acredita que algo importante se perdeu ao longo do caminho: a experiência de crescer musicalmente dentro de uma sala de ensaio, convivendo diariamente com outros músicos.

“Naquela época, você precisava descobrir as coisas junto com a banda. Havia algo especial em estar numa sala com outras pessoas, aprendendo uns com os outros, trocando ideias, em vez de ficar sozinho o tempo todo.”

Segundo ele, esse processo coletivo criava uma dinâmica única de aprendizado e composição.

“Você se reunia numa sala, tocava, voltava para casa e continuava praticando. Escrevia algo, retornava ao ensaio e dizia: ‘Pessoal, tive esta ideia’, e todos trabalhavam nela juntos.”

Embora reconheça as vantagens da tecnologia moderna, o guitarrista acredita que a interação presencial continua sendo insubstituível.

“Hoje existem vantagens e desvantagens, como em qualquer coisa na vida. A tecnologia permite que você componha riffs, envie para outra pessoa, ela aprenda a música e vocês gravem sem estarem no mesmo lugar. Mas, ainda assim, você precisa estar numa sala com os outros músicos.”

Para concluir seu raciocínio, Aguilar destacou aquilo que considera o elemento mais importante do processo criativo:

“Existe uma sinergia que vem do contato humano. Você vê a expressão da pessoa, entende como ela se sente em relação à ideia, percebe o que ela pode acrescentar e até mesmo surgem discordâncias, quando necessário.”

Mais de quatro décadas de Thrash Metal

Formado em 1982, na cidade de Daly City, na Califórnia, o Death Angel é um dos nomes fundamentais da histórica cena da Bay Area. Ao lado de grupos como Metallica, Exodus, Testament e Anthrax, a banda ajudou a consolidar a identidade do Thrash Metal durante os anos 1980.

Após o impacto causado por álbuns como “The Ultra-Violence”, “Frolic Through The Park” e “Act III”, o grupo retornou às atividades em 2001 e iniciou uma das fases mais consistentes de sua trajetória. Trabalhos como “The Art Of Dying”, “Killing Season”, “Relentless Retribution”, “The Dream Calls For Blood”, “The Evil Divide” e “Humanicide” demonstraram que a banda não dependia apenas da nostalgia para permanecer relevante.

Recentemente, o Death Angel lançou os singles “Wrath (Bring Fire)” e “Cult Of The Used”, além de seguir excursionando em celebração aos 35 anos de “Act III”, reafirmando seu papel como uma das formações mais respeitadas e duradouras da história do Thrash Metal.

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
Deixe seu comentário