Resenha: Lorna Shore – I Feel the Everblack Festering Within Me (2025)

Century Media Records

Dentro do Metal Extremo, poucos buscam se aventurar e tentar coisas novas. Muitos procuram seguir estruturas previamente já feitas, e que são ‘comercialmente’ mais aceitáveis. Com isso, aqueles que buscam continuar mudando e evoluindo acabam ganhando pouca visibilidade ou simplesmente não saem da estaca zero. Outro problema, é que muitos acham que após o ‘ápice’, sempre virá a queda. A verdade é que não existe uma receita pronta para a arte, nem mesmo uma formula secreta. Mas sim, tentativa e erro.

Novamente abordando um tema que poucos buscam falar, o deathcore continua evoluindo, e para quem achou que “Pain Remains” era a ultima coisa que o estilo conseguiria fazer com qualidade, tiveram uma grata surpresa com o ano de 2025.

No metal extremo contemporâneo, o Lorna Shore apresenta uma forma consolidada de apresentar música, capaz de transformar a agressividade em arte catártica. Com isso, em 12 de setembro de 2025, o grupo lançou seu aguardado quinto álbum de estúdio, “I Feel the Everblack Festering Within Me”, que sucedeu o icônico Pain Remains (2022), mas que manteve a régua da qualidade o mais alto possível.

O escuro transcendente do Lorna Shore

Diferente da resenha que fiz do disco anterior, aqui irei ser mais direto dentro da obra, mas trabalhando bem próximo da analise lírica apresentada. Enquanto o irmão mais velho de ‘I Feel…’, “Pain Remains”, apresentava temas de dor existencial e sofrimento emocional, este disco amplia a narrativa, tratando de conceitos como demência, desgaste psicológico, culpa e alienação social.  

Lorna Shore em 2025

Desde o início, a aura que cerca o lançamento é densa, sombria e intensa. O título em si já aponta para uma imersão profunda nas emoções mais perturbadoras: um sentimento escuro que se aloja dentro de cada um . Ideia essa ampliada pela abertura do disco, “Prison of Flesh”, fala sobre a perda de controle sobre si mesmo, a sensação de estar aprisionado dentro do próprio corpo e mente, uma metáfora poderosa que vai além do sofrimento físico e toca em questões universais sobre identidade e fragilidade humana. Na faixa, expressões como “They’re coming to get me”, fazem referência aos demônios internos ou à perda de si mesmo, e não funcionam apenas como metáforas sombrias, mas como uma forma de materializar sentimentos que, de outra forma, seriam invisíveis. A dor não é apenas sentida, é personificada, tornando o lirismo tangível, quase físico.

Ao mesmo tempo em que a brutalidade sonora permanecerá familiar para os fãs de longa data, o álbum demonstra que o LORNA SHORE continua a evoluir mesmo dentro de seu próprio estilo extremo. Em vez de simplesmente repetir fórmulas, a banda constrói uma narrativa sonora que equilibra peso implacável, temas existenciais e densidade atmosférica.

A Jornada

O disco do Lorna Shore conta com a lírica totalmente escrita por Will Ramos, que utiliza seu espaço para contar um pouco da experiência familiar com doenças tão avassaladoras, como a demência. Como mencionado, “Prison of Flesh” funciona como um portal para a visão lírica e estética da obra. Unindo técnica com atmosfera sufocante, somos levado a compreender o medo de perder pedaços de si mesmo e a entender que é impossível não se desgastar. Isso nos faz se sentir dentro de nossa própria confusão interior, lutando contra nossos próprios medos, angústias e preocupações. Extremamente mais brutal que seu predecessor, “I Feel... representa mais um passo no universo da banda.

Em “Oblivion” e “In Darkness”, temos aquilo que seria uma crítica social, mostrando que a destruição da sociedade reflete a destruição pessoal de cada ser humano. A escolha de metáforas e imagens reforça o clima sombrio: fogo, cinzas, sombras e escuridão aparecem não apenas como cenários, mas como símbolos das emoções extremas exploradas. O próprio single “Oblivion”, traz uma crítica pós-apocalíptica à destruição humana e à negligência ambiental, colocando em xeque a própria noção de avanço civilizacional. O épico som de “In Darkness” apresenta uma grande influência de estilos mais clássicos como o Black Metal, mas mantendo um apego moderno, sem perder a qualidade. Os refrões unidos as belas atmosferas nos fazem literalmente viajar e se perder em pensamentos.

Will Ramos, a mente por trás do lirismo do grupo

Cada música mantém uma identidade própria, sem sacrificar a coesão do conjunto. “Unbreakable” ergue-se como um hino de resistência, combinando intensidade e resiliência. Tendo todo o background da construção lírica do disco, a faixa trabalha com os possíveis instantes de lucidez de uma mente quebrada.

Técnica, Atmosfera e Lirismo Evoluídos

Continuando, em “Glenwood” nuances melódicas ampliam a paleta emocional do registro. Com uma construção mais melódica unida a uma letra que mergulha na dor psicológica. Aqui explora-se temas como memória perdida, conflitos internos e o medo de se tornar irreconhecível para si mesmo e para os outros. Transmitindo a sensação de desconexão da realidade, onde o mundo ao redor parece desmoronar enquanto o indivíduo perde pedaços de sua própria identidade. A faixa explora a tensão entre vulnerabilidade e resistência. O título sugere um espaço físico ou mental, talvez um lugar ligado à memória ou à história familiar, que serve como palco para essa luta. A letra ainda alterna entre desespero e momentos de lucidez dolorosa, criando um efeito de montanha-russa emocional que combina perfeitamente com os arranjos orquestrais e blast beats da banda.

“Lionheart” explora contrastes entre força brutal e momentos breves de luz, mas, reforçando a narrativa ambígua entre destruição e persistência. Com um instrumental direto, rápido, e com a presença de coros, a faixa é excepcional, e extremamente necessária para o enriquecimento da experiência sonora. Um destaque a mais para o solo maravilhoso de Adam.

A Aceitação

Em sequencia, ouvimos aquela que talvez seja a minha favorita do disco. “Death Can Take Me” é um Magnum opus de 7 minutos, extremamente sombrio e introspectivo, que mergulha em temas como aceitação da mortalidade, desesperança e rendição emocional. A letra transmite um sentimento de que se está confrontando não apenas a morte física, mas também o desgaste psicológico e emocional que a vida extrema pode trazer. Musicalmente falando, a orquestração aqui é tão sublime que chega a assustar o ouvinte. Seguida de riffs rápidos, entrecortados a passagens meio sincopadas, a composição se faz completa do início ao fim. Além de tudo isso, o solo na medida correta, sendo mais harmónico, transmite uma sensação de fim já esperado, gelando até mesmo a alma.

O fim

Como já aparenta ser algo de costume da banda, a tríade final é simplesmente absurda. Começando pela atmosférica e direta “War Machine”, tratando de temas como fúria e frustração, a composição combina riffs densos, blast beats agressivos e vocais de impacto extremo com passagens rítmicas que amplificam a tensão lírica, criando uma sensação de pressão constante. A música faz com que o ouvinte sinta a guerra pulsando em cada segundo, unindo a brutalidade sonora ao lirismo simbólico.

“A Nameless Hymn” combina passagens melódicas e atmosféricas com explosões de agressividade, criando um contraste que reflete a luta entre vulnerabilidade e fúria interna. Os vocais de Will Ramos alternam entre guturais devastadores e momentos quase narrativos, dando corpo ao lirismo e fazendo com que cada palavra carregue peso emocional e significado dramático. Liricamente, se sugere uma sensação de anonimato e desconexão, como se o narrador estivesse lutando para encontrar sentido em meio ao caos. O “hino sem nome”, porém, funciona como uma metáfora para vozes esquecidas ou sentimentos que não encontram expressão no mundo, reforçando a ideia de isolamento e alienação.

Lorna Shore ao vivo em Fortitude Music Hall, Australia – Photo por Luke Petty

A união final

Por fim, a épica “Forevermore” finaliza o disco unindo todo o tema central em uma só leitura. Resistência, dor, transcendência e legado são eternos, e nunca irão desaparecer, mas se tornam parte de nós, transformando toda a dor e sofrimento em força motriz. Mas composição mantém a dualidade, combinando momentos de brutalidade extrema com passagens orquestrais e melódicas, criando uma narrativa sonora que reforça o lirismo da letra. A forma como ela fecha o disco, é simplesmente genial. Da mesma fora que está ‘destruindo’ com peso, brutalidade e agressividade, ela convida para a reflexão, transmitindo o sentimento de continuidade, dando ao épico o poder poético de ser uma narrativa emocional.

O Legado de I Feel the Everblack Festering Within Me

Musicalmente, ‘I Feel the Everblack Festering Within Me‘ expande ainda mais o alcance sinfônico e técnico pelo qual o Lorna Shore já era conhecido. A produção, por Josh Schroeder, exibe arranjos orquestrais que se entrelaçam com blast beats, vocais insanos e guitarras esmagadoras, criando uma atmosfera que é ao mesmo tempo cinematográfica e implacável. A combinação de força extrema com narrativa introspectiva cria uma experiência onde a brutalidade não é algo banal, mas sim parte de um discurso emocional mais amplo — um registro que não teme confrontar o ouvinte com reflexões desconfortáveis sobre existência, destruição e identidade.

O novo disco não é apenas uma continuação de Pain Remains; é uma afirmação de que o Lorna Shore não apenas domina seu território — ele está redefinindo o estilo. Sendo a força que sempre busca mudar e se manter relevantes, a banda não tem medo de flertar com sentimentos e nem mesmo de expô-los da maneira devida.

A relevância do álbum fica evidente pela maneira como ele se sustenta como obra coesa, emocionalmente rica e tecnicamente impressionante do começo ao fim. Tenham certeza que esse nome, Lorna Shore, já se tornou sinonimo de qualidade e reverencia!

Nota: 9,5/10

Faixas:

  1. Prison of Flesh
  2. Oblivion
  3. In Darkness
  4. Unbreakable
  5. Glenwood
  6. Lionheart
  7. Death Can Take Me
  8. War Machine
  9. A Nameless Hymn
  10. Forevermore 

Integrantes:

  • Will Ramos (vocais)
  • Adam De Micco (guitarra)
  • Andrew O’Connor (teclados e orquestrações)
  • Michael Yager (baixo)
  • Austin Archey (bateria)

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