Adrian Smith sobre aposentadoria de David Coverdale: “Quando sua principal ferramenta é a voz, chega uma hora de parar”

Photo: Paul Bergen/ Redferns

O anúncio da aposentadoria de David Coverdale, histórico vocalista do Whitesnake e ex-integrante do Deep Purple, reacendeu um debate inevitável no universo do heavy metal: qual é o momento certo de parar? Em meio a esse cenário, o guitarrista do Iron Maiden, Adrian Smith, comentou o assunto com franqueza, sensibilidade e realismo. Ele abordando não apenas o caso de Coverdale, mas também o desgaste físico e emocional que acompanha uma carreira de décadas.

Em entrevista à publicação finlandesa Chaoszine, Adrian Smith foi questionado se consegue se imaginar se aposentando completamente da música, assim como David Coverdale fez recentemente. O guitarrista respondeu de forma reflexiva, contextualizando sua relação com a música ao longo da vida:

“Costumava ser tudo para mim, quase de uma forma não muito saudável, porque minha vida inteira girava em torno da música. E, se as coisas não iam bem, eu ficava deprimido. E você não deveria ser assim. Por outro lado, se você está tentando chegar a algum lugar, precisa se importar nesse nível. Se eu não tivesse feito isso, talvez não estivesse onde estou hoje. Mas não foi fácil. Foi uma luta, mentalmente também. Agora eu aproveito. Estou no controle. Estou em um bom momento. E só quero curtir isso pelo maior tempo que eu puder.”

Na sequência, Smith falou diretamente sobre a saída de cena de Coverdale, adotando um tom respeitoso, porém honesto:

“É triste o que aconteceu com o David Coverdale, porque ele foi um grande artista no Deep Purple e no Whitesnake. Mas quando — não estou dizendo que ele é ‘apenas’ um cantor — quando a sua principal coisa é a voz e você tem 80 anos, cara, chega a hora de parar. Eu sou bem mais jovem que isso. Ainda estou na casa dos 60, então ainda me sinto muito bem. Sei que não desgastei minha voz como provavelmente o David Coverdale desgastou ao longo dos anos. Ainda estou desenvolvendo isso, o que é algo bom. Então espero conseguir continuar por mais alguns anos.”

A declaração joga luz sobre um ponto sensível: no metal e no rock pesado, a voz costuma ser o primeiro instrumento a cobrar seu preço, especialmente após décadas de turnês intensas e excessos comuns na juventude.

Photo: Per Ole Hagen/ Getty Images

Entre paixão, sacrifício e lucidez

Além disso, Adrian Smith destacou como sua relação com a música mudou ao longo do tempo. Se antes ela representava tudo — inclusive um peso psicológico — hoje ocupa um lugar mais equilibrado. Esse amadurecimento, segundo ele, foi essencial para continuar criando e se apresentando com prazer, e não por obrigação.

Esse mesmo discurso ecoa em outras declarações recentes dentro do Iron Maiden. O baixista Steve Harris, por exemplo, deixou claro que não pensa em aposentadoria no curto prazo, mas reconhece que ela é inevitável. Para ele, o segredo está em aproveitar cada show como se fosse único, mantendo a disciplina física e mental, mas sem ignorar que o tempo, cedo ou tarde, cobra seu preço.

Dave Murray e a importância de sair com dignidade

Já o guitarrista Dave Murray abordou o tema sob outra perspectiva, talvez ainda mais direta. Em entrevista ao Music Radar, ele afirmou que nada é pior do que ver uma banda no palco quando claramente já passou do seu tempo. Segundo Murray, o Iron Maiden saberá reconhecer o momento certo de encerrar as atividades:

Ele defende que existe “uma hora e um lugar para sair com dignidade e graça”, em vez de prolongar a carreira pelos motivos errados. Para o guitarrista, encerrar no auge — ou pelo menos em alto nível — é uma forma de respeito não apenas com o público, mas com a própria história da banda.

Ao comentar a atual turnê mundial “Run For Your Lives”, iniciada em 2025, Murray reforçou que o grupo ainda sente entusiasmo, adrenalina e prazer ao subir no palco, fatores que, para ele, justificam plenamente a continuidade neste momento.

O peso do tempo e o legado que fica

A aposentadoria de David Coverdale simboliza mais do que o fim de uma carreira: representa um ciclo que se fecha dentro do hard rock e do heavy metal. Diferente de instrumentistas, vocalistas enfrentam limites biológicos muito mais evidentes, e insistir além deles pode comprometer um legado construído ao longo de décadas.

Nesse sentido, as falas de Adrian Smith, Steve Harris e Dave Murray mostram uma rara combinação de paixão pela música e lucidez sobre o envelhecimento. Em um cenário onde muitas lendas se recusam a sair de cena, reconhecer a hora de parar pode ser, paradoxalmente, um dos maiores atos de grandeza artística.

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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