Resenha: Savage Grace – “After The Fall From Grace” (1986)

Pode-se afirmar tranquilamente que o Savage Grace foi um das bandas de maior potencial surgida em meados dos anos 80. Teve uma ascensão meteórica com o lançamento de dois excepcionais álbuns, mas por causa das polêmicas e porralouquices de seu líder, Chris Logue, a carreira dos caras foi tão curta que poucos são os que ainda se lembram das duas pérolas por eles apresentadas.
“Master Of Disguise”, de 1985, transitava muito bem entre o Speed Metal mais porrada (executado por nomes como Agent Steel) e possui também algumas melodias do US Power (de bandas como Helstar e Liege Lord). Já “After The Fall From Grace” veio com algumas pequenas mudanças em relação ao seu antecessor. As mais visíveis foram as saídas do vocalista Mike Smith e do baterista Dan Finch.
Desta forma, o próprio Chris Logue assumiu os vocais e Mark Marcum assumiu as baquetas. Musicalmente, também existe certa diferença entre os dois trabalhos. “After The Fall From Grace” introduz mais melodia, alguns coros muito interessantes e, de maneira geral, é um disco mais encorpado e original.

Polêmicas e porralouquices
Quando mencionei “polêmicas e porralouquices” de seu líder no começo do texto, isto já fica evidente com a escolha do mascote da banda. Muito longe de ter um Eddie ou uma Vic Rattlehead como mascote, o Savage Grace criou o personagem Knutson, um serial killer pervertido que se veste como policial para subjugar e abusar de mulheres indefesas.
Tendo isto em mente e se lembrando que Chris Logue nunca bateu muito bem das ideias, você já deve imaginar o festival de imagens chocantes com o mascote amarrando, amordaçando e torturando jovens indefesas. Nas imagens promocionais, capas de EP e etc, também sobravam imagens onde as modelos apareciam com as peitolas de fora. Até hoje, se ousarmos postar estas capas nas redes sociais, certamente teremos a publicação e quiçá a conta excluída…
Ao mesmo tempo em que as capas chamavam a atenção do público, também eram alvo de polêmicas mil e, portanto, em “After The Fall From Grace”, a banda decidiu que a temática iria se manter intacta, mas não teria nenhuma parte íntima feminina exposta, apenas uma imagem subliminar onde um executor segura um machado e está prestes a fazer mais uma vítima.
Uma curiosidade é que o personagem da capa, apesar do rosto não aparecer na foto, trata-se do mítico baterista Gene Hoglan como carrasco executor.

Um verdadeiro deleite musical
O segundo e último registro de estúdio da banda até o retorno recente é um verdadeiro deleite, O quarteto estadunidense original de Los Angeles, Califórnia, aposta em composições fortes, classudas e cheias de momentos apoteóticos. A introdução “Call To Arms” é realmente um chamado ao combate. E a batalha inicia de forma devastadora com a excepcional “We Came, We Saw, We Conquered”.
A faixa título possui um forte e pegajoso refrão, e os coros ao estilo “ô, ô, ô” fariam o Iron Maiden de hoje sentir inveja. “Trial By Fire” apresenta uma introdução que vai crescendo até explodir em uma faixa inegavelmente visceral que soa até mesmo diferente das demais tamanha sua agressividade. Após mais uma introdução, “Palestinia”, segue-se a belíssima “Age Of Innocence”, com guitarras soberbas e linhas vocais de tirar o fôlego.
Perto do final, temos “Flesh And Blood” (os melhores solos do álbum), “Destination Unknown” (refrão grudento!) e “Tales Of Mystery” (faixa mid-tempo cheia de energia). Importante ressaltar que a performance de todos os músicos é muito acima do esperado. Chris Logue se adaptou muito bem aos vocais, a dupla de guitarras formada por ele e o ex-Agent Steel, Mark Marshal, funciona de forma cirúrgica, a cozinha recém constituída é surpreendentemente segura e coesa, e este é um álbum que não possui nem sequer vestígios de pontos fracos.
Infelizmente, após a gravação, houve muitos problemas internos envolvendo os integrantes e, sendo assim, o Savage Grace acabou ficando parado sem mais lançamentos. Com um grande número de guitarristas indo e vindo, se mudaram para NY em 1989 e gravaram uma demo que não resultou em novo álbum.

História de filme
Logo em seguida, em 92, a banda se separou. E lembra que eu disse que Chris Logue era um sujeito polêmico e que não batia muito bem das ideias, pois é, após a dissolução da banda, o cara aprontou poucas e boas e chegou até mesmo a ser preso por exercer medicina de forma ilegal (sem licença).
Quando a polícia bateu na casa do sujeito, encontraram praticamente um arsenal militar dentro de seu apartamento, eram armas que não acabavam mais, de todos os tipos e calibres, vai vendo! Após alguns anos no xilindró, ele acabou sendo solto e em 2009, tentou reviver o Savage Grace tocando em alguns festivais e, inclusive, lançando o EP “The Lost Grace” em 2010.
Pouco depois, a banda se reuniu para a gravação de um suposto novo álbum, mas o doidão simplesmente abandonou os demais músicos no estúdio e nunca mais voltou. Sim, é isso mesmo, o cara “saiu para comprar cigarros” e não deu mais as caras. Na época, os músicos ficaram possessos e resolveram dar continuidade no trabalho, mas como o nome Savage Grace é de propriedade de Chris Logue, passaram a se chamar Masters Of Disguise, roubaram o mascote Knutson na cara larga e estão na ativa até hoje, com 3 baita álbuns lançados.
Chris Logue, por sua vez, reativou o Savage Grace e lançou um novo álbum em 2023 chamado “Sign Of The Cross”. Apesar da hype em cima do disco, ele soa muito diferente de tudo que a banda apresentou no passado e, dessa forma, não faz frente aos seus momentos mais criativos. Uma pena.
Nota: 9
Integrantes:
- Chris Logue (vocal e guitarra)
- Brian “Beast” East (baixo)
- Mark “Chase” Marshal (guitarra)
- Mark Marcum (bateria)
Faixas:
- 01 Call To Arms
- 02 We Came, We Saw, We Conquered
- 03 After The Fall From Grace
- 04 Trial By Fire
- 05 Palestinia
- 06 Age Of Innocence
- 07 Flesh And Blood
- 08 Destination Unknown
- 09 Tales Of Mystery
