Resenha: Fallujah – “Xenotaph” (2025)

Continuidade, evolução, constância, avanço. Todas essas palavras trazem uma ideia de movimento e seguimento. Algo que não está parado, nem estagnado. Mas cada uma delas carrega um sentido diferente.
- Continuidade: prosseguir além de um ponto. Não implica melhora nem decadência — apenas seguir em frente.
- Evolução: sair de um ponto pré‑estabelecido e melhorar. Frequentemente ligada à adaptação e a mudanças positivas.
- Constância: manter o mesmo ritmo, porém com a mesma qualidade.
- Avanço: mudança significativa, algo que não retrocedeu, mas “andou para frente”.
Quatro palavras, quatro sentidos similares — porém com nuances profundas e distintas. Dizer que algo “evoluiu” não é o mesmo que dizer que algo “continuou”. Por isso, precisamos tomar cuidado com os adjetivos que usamos ao nos referir às situações. No mundo da música, é comum utilizar esse tipo de palavra ao tratar de uma banda ou lançamento. Mas nem sempre o uso está correto. Já vi inúmeras vezes o termo “evolução” sendo aplicado àquilo que está estagnado. Como algo “evolui” se está parado? Como “avança” algo que apenas continua imóvel?
A verdade
A verdade é que nem em um milhão de anos conseguiremos entender o uso equivocado de certos adjetivos quando falamos de gosto pessoal. Para muitos, o metal regrediu e “só existiu coisa boa nos anos 90 e tempo do Steven Tyler virgem”. Não julgo — afinal, esse é o pensamento daquela pessoa e ela pode pensar como quiser… Mas isso não significa que esteja certa.
O que poucos querem aceitar é que o metal mudou, mas para algo positivo. A ciência busca sempre evoluir, atualizar‑se e trazer algo melhor. Se aceitássemos viver apenas com o conhecimento do início da década de 1950, muitos de nós não estaríamos vivos para termos essa conversa. Na música não é diferente. Por mais que o metal tenha se adaptado, modificado, não é possível que você diga que “tudo novo é péssimo”. Tem direito de não gostar — mas não reconhecer o benefício de muitas mudanças é, no mínimo, ignorância.
É saudosismo puro e desmedido. Ver‑se preso ao passado impede que você mude horizontes e abrace novas coisas. Musicalmente, é assim. Imagine se em 1980 a Iron Maiden tivesse pensado que seu som era “diferente demais” se comparado ao que a Black Sabbath vinha fazendo. Ou se Chuck Schuldiner achasse suas ideias “agressivas demais” e as descartasse. O mundo deriva de mudanças, experiências, ideias novas e adaptações. Você pode não gostar — mas aí o problema é exclusivamente seu.
A faceta da mudança
A ideia de um metal mais técnico e “trabalhado” é antiga. Diversas bandas de rock progressivo ou metal progressivo já buscaram um som bem técnico para apresentar. Com o tempo, o metal mais extremo chegou, e junto dele se criou o estigma do “apenas barulho”. Mas isso foi destruído com lançamentos excelentes de metal extremo porém técnico. Bandas como Death, Atheist, Necrophagist, Gorguts, e a própria Suffocation, entregaram o que parecia difícil: um som pesado, bruto, mas com extrema técnica, precisão e harmonia.

E claro, não ficaria apenas nisso. Esse tipo de sonoridade agradou tanto que outras bandas decidiram polir ainda mais a ideia. Até os dias de hoje, grupos continuam nessa onda e nos presenteiam com excelentes lançamentos. Beyond Creation, Obscura, Rivers Of Nihil, Inanimate Existence, Continuum, First Fragment e, claro, Fallujah — esta última é um velho conhecido de todos que transitam pelo estilo. Todos sabem o quanto a banda é competente e imprime um toque único em suas músicas. Com temas que beiram o niilismo existencial e cósmico, a banda agrada pela técnica, suavidade e peso na medida certa.
Novas eras: Fallujah
Enquanto outras bandas se debruçavam sobre técnica+peso — como o caso do Beyond Creation (sério, se não conhecem, ouçam) — os americanos do Fallujah flertaram com o peso, mas decidiram caminhar por uma estrada mais suave. Formada em 2007, o grupo surge graças à nova onda do deathcore americano, ao lado de bandas como Job for a Cowboy, The Faceless e Rings of Saturn. Seu primeiro lançamento, o EP Leper Colony, é um disco totalmente na onda do deathcore: muitas mudanças de ritmo, bases sincopadas, transitando bem pelo “novo” tipo de som que era apresentado. Porém, a banda sabia que deveria evoluir e se destacar dos outros que surgiram ao seu lado. Com isso a fórmula foi mudada em seguida, com o lançamento de The Harvest Wombs (2011) — um disco mais virtuoso, pesado, mas que mostrava a busca por uma identidade.
Nascia assim o embrião do que hoje é o grupo Fallujah. Já em The Flesh Prevails (2014) o que antes parecia técnica desconexa agora se tornava um estudo bem feito de instrumentos e conexões bem executadas. Tudo milimetricamente pensado e conectado.
Tudo conectado: eras boas
A sequência foi magistral. Mesmo com lançamentos de expressão variada, a banda seguiu sendo um expoente importante no metal técnico. Foram mais três discos mantendo a classe e apresentando a característica primordial: o foco em como é possível unir virtuosidade e peso. Mesmo assim, parecia faltar algo: um elo ainda a ser encontrado. Às vezes o som era técnico demais, em outras parecia bruto demais. Ou seja: o meio termo ainda não havia sido plenamente alcançado.

Finalmente, em 2025, essa dúvida e procura se encerram com Xenotaph. O novo disco dos americanos é o ápice da banda. Com virtuosidade, peso, velocidade e suavidade no lugar certo — talvez tenhamos aqui o magnum opus do grupo. Tudo colabora para essa conclusão: um grupo que, após um período de continuidade de uma ideia, evoluiu e passou para um novo nível de construção e concepção de seu trabalho.
Ato I – “Ondas Estrelares de Pedra”
O trabalho abre com a excelente “In Stars We Drown”, faixa que começa com uma introdução ambiental, em órbita, cercados por vocais suaves que transmitem uma paz relaxante… e que rapidamente são rompidos pelo novo andamento da faixa. A velocidade entra, os vocais tornam‑se guturais, e riffs que farfalham entre cordas dominam. Dois tipos de riffs: um mais rápido, outro mais melódico — que se combinam e apresentam ao ouvinte o que o álbum quer transmitir: “caos organizado”. É impressionante como o que é construído aqui, em Xenotaph, se completa como obra única. O disco inteiro pode ser considerado um organismo de “atos” orgânicos que se transformam durante a audição.
Como “Kaleidoscopic Waves”, faixa que encaixa perfeitamente com o final da antecessora, mas não repete a mesma construção. Uma sacada de genialidade. Com momentos que transitam entre calmaria e extremo, o que se destaca ainda mais é a virtuosidade dos solos — que surgem nos momentos certos e completam o que se espera ouvir. Similarmente, “Labyrinth of Stone” eleva a audição com sua progressão rítmica, que simplesmente evolui para uma composição complexa e cheia de nuances. Os vocais transitam muito bem entre agressivo e melódico, aumentando a sensação de “carrossel” na faixa.
Ato II – “O portal para o sonho de veias parasíticas”
“The Crystalline Veil” faz uma nova ascensão: introdução calma que rapidamente se dissolve em riffs rápidos e bem posicionados. Dá a sensação de uma história sendo contada. O bacana no Fallujah é como a atmosfera de seus lançamentos sempre buscou um ar interplanetário e melancólico — como se tudo que ouvíssemos estivesse ocorrendo em outro ambiente ou planeta. “Step Through the Portal and Breathe”, por exemplo, remete aos discos como Dreamless. Esta faixa seria a ligação. Cabeçalhos – simplesmente excelente, de bom gosto, e que prende o ouvinte. Com conduções e pontes bem feitas, linha final muito aconchegante — literalmente como um pôr‑do‑sol que transmite beleza e leveza.
“A Parasitic Dream” faz — em sequência — a ligação do pôr‑do‑sol com o início da aurora da manhã. Essa transição suave abre para a faixa que apresenta a linha mais sincopada da banda. Com riffs destoantes, mas não dissonantes, a música mostra a progressão do grupo. Com construções bem feitas e andamento ótimo, a 6ª música do disco pode a princípio parecer estranha, porém está bem construída. Existem alguns pontos que soam mais criativos e até inesperados, mas nada que desabone o disco como um todo.
Ato III – “O cenotáfio do Arquiteto”
Nosso “grande arquiteto” emerge na audição. Em “The Obsidian Architect”, a faixa mais crua e pesada, a banda remete aos tempos iniciais — com peso e linhas absurdas de guitarra. Ainda flutuando entre vocais graves e suaves, a faixa é de extremo bom gosto. Atmosfera densa e sobrenatural, quase seis minutos de pura representação do que é um death metal técnico. Com virtuosidade e identidade. Os minutos finais do disco são incríveis.
E esse sentimento persevera na faixa‑título “Xenotaph”. Como uma união das palavras “xeno” e “cenotáfio”: “cenotáfio” é um monumento funerário erguido em homenagem a alguém que não está enterrado ali. De forma sobrenatural e futurista, essa faixa encerra a jornada com excelência. O que os fãs esperavam: “Xenotaph” é um soco no estômago cheio de técnica, peso e muito amor.
Futuro nas mãos
Scott Carstairs — único membro fundador remanescente do grupo — e a nova formação apaixonada pelo metal têm feito um trabalho incrível. Segundo entrevista ao portal Acesso Music:
“Pra mim, esse é o primeiro disco de verdade dessa formação, porque o Empyrean foi algo que eu tive que criar para conseguir reformar a banda e atrair essas novas pessoas, agora nós somos uma banda nova, eu quero escrever mais discos com esses caras.”

Podemos esperar novidades — e isso é ótimo: pois, apesar do tempo que já passou, Xenotaph foi justamente aquilo que precisávamos para continuar acreditando nas novas promessas!
Nota: 8,8
Integrantes:
- Scott Carstairs (Guitarras, Composição)
- Evan Brewer (Baixo)
- Kyle Schaefer (Vocais, Programação, Letras, Composição)
- Sam Mooradian (Guitarras, Composição)
Faixas:
- In Stars We Drown
- Kaleidoscopic Waves
- Labyrinth of Stone
- The Crystalline Veil
- Step Through the Portal and Breathe
- A Parasitic Dream
- The Obsidian Architect
- Xenotaph
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